quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

M. Dias Branco e os Empreendimentos de Meu Avô

Desde que descobri a existência da M. Dias Branco (MDIA3), passei a admirar o jeito que a empresa é administrada, gosto muito do conservadorismo da gestão e da maneira como a empresa desenvolve seus negócios. Parte dessa admiração, não nego, é porque identifico alguns pontos da trajetória empreendedora de meu avô na M. Dias Branco, porém algumas diferenças cruciais no pensamento de cada um dos empreendedores fizeram com que a M. Dias Branco se tornasse uma gigante e que os negócios desenvolvidos por meu avô sumissem com o tempo.

Começarei com as semelhanças. Tanto meu avô quanto Manuel Dias Branco, o fundador da empresa, imigraram de Portugal para o Brasil na juventude e os dois, depois de alguns anos, conseguiram juntar dinheiro para começar seus empreendimentos. Existe uma diferença de mentalidade bastante grande entre os imigrantes portugueses do século XX e os brasileiros que já habitavam aqui, tanto meu avô como o Manuel e vários outros portugueses chegaram ao Brasil com quase nada de dinheiro, sem instrução, saíram da pobreza e tornaram-se empreendedores. Deve ser algum resquício da herança dos mercadores lusitanos, porque poucos brasileiros conseguiram trilhar o mesmo caminho.

O Manuel Dias Branco começou a trabalhar como corretor de algodão no Ceará, um trabalho autônomo, e logo após já abriu um armazém de Secos e Molhados, já meu avô foi meio desleixado até chegar aos 30 anos, teve vários empregos: operário, garçom e cozinheiro, e, como ele mesmo dizia, cansava-se de trabalhar após alguns meses, pedia demissão e ficava um tempo sem trabalhar até o dinheiro acabar! Isso atrasou bastante o começo da fase empreendedora do meu avô, parece que só depois que ele se casou que resolveu começar a trabalhar com seriedade.

Em 1936, Manuel funda a Padaria Imperial e começa a expandir sua produção, até que, na década de 1950, a produção de massas e biscoitos ganha escala industrial com o ingresso do filho, Francisco Ivens, na sociedade. Já meu avô, teve a grande sorte de começar a empreender no governo do Castelo Branco (1964-1967), no começo do milagre econômico brasileiro, e conseguiu abrir um bar no centro de São Paulo. Explorar o vício das pessoas sempre foi algo que deu bastante dinheiro, mas um bar é um negócio bastante rudimentar, não dá para expandi-lo como uma indústria.
Melhor época para empreender no Brasil
Entre a década de 1960 e 1990 a M. Dias Branco expande muito a sua capacidade e começa a verticalizar a produção, além disso o Ivens é preparado para assumir a empresa, realiza várias capacitações e começa a assumir as funções de seu pai. Já meu avô, entre 1970 e 1990 comprou e vendeu alguns bares, foi proprietário de um restaurante e sócio de um mercadinho por algum tempo e alugava um apartamento para complementar a renda, nenhum de seus filhos teve pendor para continuar empreendendo nesses segmentos, apesar de se tornarem profissionais bem sucedidos em outras áreas.
Verticalização com a produção de farinha
Em 1995, Manuel falece com 91 anos de idade e o filho continua os negócios. Meu avô vendeu todos seus negócios no final da década de 1990 e aplicou o dinheiro para ter uma aposentadoria boa, de fato nunca faltou dinheiro para meu avô até que ele falecesse, mas ele não conseguiu criar uma cultura familiar que desse continuidade aos seus negócios.
Francisco Ivens e Ivens Júnior
A década de 2000 foi o turning point para a M. Dias Branco, ela passou a ser uma grande empresa alimentícia nessa década, comprou a Adria em 2003, abriu capital em 2006 e comprou a Vitarella em 2008. Na década de 2010, a M. Dias Branco continuou adquirindo concorrentes menores e, mais uma vez, conseguiu realizar, em 2014, uma bem sucedida sucessão empresarial, dessa vez para o neto do Manuel.

Nesse ano que termina agora, além das outras inúmeras ilustres personalidades que nos deixaram, faleceu Francisco Ivens Dias Branco aos 81 anos. Para mim, ele é um exemplo de empreendedor, agregava equipes, investia com conservadorismo e mantinha uma vida pessoal discreta e simples. Ele é exatamente o oposto do Fake Batista.

A capacidade de organizar negócios e equipes produtivas do Ivens foi evidenciada quando ele respondeu a pergunta do antigo dono da Vitarella, que queria saber quem seriam os gestores que comandariam a empresa:
Que gestores, meu filho? Você acha que eu vou mexer numa equipe que lidera o mercado e ganha de meus produtos? Você vai continuar comandando a Vitarella com a mesma equipe para ganhar mercado.

Eu prefiro a administração familiar à administração corporation, ou seja, sem proprietários, dou o exemplo que as empresas familiares são uma monarquia e as corporations são repúblicas. Como nas corporations os administradores não são os proprietários do negócio é comum que eles criem remunerações absurdas para eles mesmos e multiplicam-se na empresa como uma burocracia governamental. Claro que, assim como existem monarquias decadentes, também existem empresas familiares corruptas, mas como nessas empresas os administradores são os maiores proprietários do negócio é bem menos vantajoso criar alguma artimanha para desviar o dinheiro da empresa. A família Dias Branco possui 71% da empresa, isso diminui muito as chances de que algum administrador tente criar alguma artimanha para desviar dinheiro e, até agora, a M. Dias Branco representa a honra familiar e desde 1936 não há suspeitas de nenhum caso de corrupção. (suspeita de formação de cartel informada nos comentários pelo confrade ADP).

Lamentavelmente, ainda não sou sócio da M. Dias Branco, mas buscarei corrigir este erro em breve.

Para finalizar, deixarei uma homenagem ao meu avô, um exemplo para mim e um dos heroicos empreendedores que contribuíram para gerar riqueza na inóspita Terra Brasilis.
AVE LUSITANIA

10 comentários:

  1. Marcelo,

    Post excelente!

    Também sou um grande admirador da M. Dias Branco, essa empresa é fantástica, uma das melhores da nossa Bolsa.

    Abraços!

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    1. Obrigado, IL! Tenho a intenção de organizar um ranking mensal de rentabilidade, sem patrimônios, somente um comparativo de rentabilidades. Você gostaria de participar?

      Abraços!

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    2. Marcelo,

      Tenho interesse em participar sim!

      Mas como exatamente ele vai funcionar? Será considerada a rentabilidade geral, ou seja, de toda a carteira de investimentos ou apenas das ações?

      Obrigado pelo convite e parabéns pela iniciativa.

      Abraços!

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    3. Será considerada a rentabilidade geral dos investimentos com liquidez. Eu deixei melhor explicado nesse post:

      http://capitalismus.blogspot.com.br/2016/12/fim-de-2016-e-projetos-para-2017.html

      A partir de fevereiro de 2017 já começo a compilar os dados de janeiro e dou início ao ranking.

      Abraços!

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  2. Muita boa a postagem. Sou sócio da empresa desde maio de 2012 e não tenho o que reclamar. Achei perfeita a comparação entre empresa familiar com monarquia e entre empresa corporation com república. Só o final, onde você diz que desde 1936 nunca houve suspeitas de caso de corrupção, é que não concordo. Veja:

    http://epoca.globo.com/tempo/noticia/2016/01/cartel-do-paozinho-era-formado-por-grandes-empresas-segundo-cade.html

    http://diariodopoder.com.br/noticia.php?i=29929476424

    Nada está provado, mas são suspeitas.
    De qualquer forma, sigo sócio da empresa.
    Abraços

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    1. Salve, ADP! Não sabia da existência do cartel do pãozinho e suspeita de manipulação dos preços do trigo, pois bem, terei que editar meu post. Obrigado pela informação.

      A propósito, você quer participar do ranking de rentabilidade que eu desenvolverei no blog em 2017?

      Abraços!

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  3. Olá, gostaria de participar do ranking. Valeu!

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    1. Ok, IC. Já está confirmada a sua participação.

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