A Magazine Luiza é uma Bolha?

A Magazine Luiza foi um dos cases mais espetaculares do mercado de ações brasileiro nos últimos anos. A empresa saiu da condição de uma rede de lojas de departamentos que registrava prejuízos recorrentes para uma das maiores varejistas e market place de comércio do Brasil em poucos anos, mas o crescimento exponencial das suas ações suscitou dúvidas. Segundo vários participantes do mercado, a ação já estaria muito cara e os preços das ações teriam deixado de refletir uma análise econômica razoável da companhia. Muitos já disseram há tempos atrás que o desemprenho das ações da Magazine Luiza refletia uma bolha, mas as ações continuaram subindo após isso. Neste artigo não vou trazer verdades absolutas, mas pontos que devem ser refletidos sobre o Valuation atual desta empresa.

Os Negócios da Magazine Luiza

 

A empresa foi a primeira grande varejista do Brasil a realizar uma transformação de um modelo de varejo físico para um modelo basicamente digital com pontos de apoio nas lojas físicas e entregas rápidas a partir de transportadora própria, a Logbee. Percebi que parte do modelo da Amazon foi copiado e modificado para satisfazer melhor as necessidades dos brasileiros. A exemplo da Amazon, o marketplace digital da Magalu não vende apenas produtos da rede, mas também de lojas parceiras, mas, diferentemente da Amazon, o sistema logístico da Magalu se apóia nas lojas físicas como ponto de distribuição e em produtos financeiros que já são conhecidos dos brasileiros, como o crediário e cartão de crédito com marca própria.
A aquisição da Netshoes deve somar ao portfólio da empresa e deve gerar sinergias com o sistema logístico da Magalu, acredito que a compra foi acertada e que os resultados da Netshoes devem melhorar bastante quando combinados com o sistema da empresa.

Concorrência

 

A rápida expansão, digitalização e integração das operações da Magazine Luiza fez com que seus concorrentes no varejo brasileiro também armassem um contra-ataque. A Lojas Americanas e B2W lançaram uma processadora de pagamentos, a Ame Digital, que oferece cashback para produtos comprados na rede. A Via Varejo (Casas Bahia e Ponto Frio) voltou a ser administrada pela família Klein e vai lançou um banco digital próprio, o BanQi, além de terem prometido modernizar e revitalizar os negócios do grupo. A Havan continua crescendo por meio de um modelo de nicho, mais focado em lojas físicas em cidades médias e preços acessíveis.
A Amazon é uma ameaça certa ao modelo de negócios da Magazine Luiza. A oferta do Amazon Prime no Brasil é muito vantajosa para o consumidor, recentemente li o artigo sugerido pelo AA40 sobre o Amazon Prime, mas discordo da conclusão do autor, que apresentou, a meu ver, motivos filosóficos para não aderir ao Prime, porém o consumidor acaba economizando muito pagando somente 9,90 reais por mês e tendo frete grátis e acesso às músicas, séries e filmes do Prime. É possível economizar muito mais ainda se o consumidor optar por cancelar TV a cabo, Netflix e Spotify e ficar somente com os serviços oferecidos pelo Prime. Como o modelo de negócios da Amazon é oferecer serviços e produtos por preço quase de custo até que a empresa esteja consolidada em um mercado, isso pode afetar as margens das outras varejistas que podem ter que também diminuir os preços.

Valuation


Aqui é que aparece o problema. A Magazine Luiza é uma empresa sensacional, mas seria o suficiente para justificar o preço elevado.Em 2018 a empresa lucrou 597M ajustados e no primeiro semestre de 2019, lucrou 251M ajustados. Vou fazer um cálculo simples para demonstrar que a Magalu é uma empresa que embute altíssimas expectativas de crescimento futuro.

Considerarei que a Magalu irá lucrar 700M este ano e utilizarei uma taxa de desconto de 8% ao ano para calcular o quanto a Magalu deve expandir seu lucro nos próximos 10 anos para que o preço atual seja justificado.
Utilizei a calculadora de Fluxo de Caixa Descontado do confrade Mestre dos Dividendos e considerei que a Magazine Luiza cresceria na taxa da inflação pelos próximos 90 anos. A calculadora de FCD não é um método absoluto de Valuation, ela apenas nos dá o preço justo ao considerar certas premissas que são conseguidas por estimativa empírica.
Pelas premissas utilizadas (lucro de 700M em 2019 e taxa de desconto de 8%), a Magazine Luiza deverá crescer no mínimo 28% ao ano pelos próximos 10 anos para justificar o preço atual. Isso ocorre porque o Earnings Yield calculado é muito baixo, somente 1,06%, dado o enorme valor de mercado de 65,823Bi de reais que o preço das ações MGLU3 confere à empresa.

Veredicto


Eu não gosto de adquirir ações que embutem uma perspectiva muito elevada de crescimento, porque, obviamente, ela pode não ocorrer e aí o investidor acaba pagando muito mais do que o valor do ativo. Dessa forma, estou cético que a Magalu consiga um crescimento da ordem de 28% ao ano para os próximos anos e que justifique o preço atual das ações, ainda mais com o contra-ataque das outras varejistas que operam no Brasil, o que já está acontecendo.

A Magalu cresceu muito ao fazer a transição de um modelo de varejo antigo para um modelo digital otimizado, mas agora não há mais muito o que otimizar e a empresa dependerá de mais crescimento orgânico para continuar expandindo o lucro. Ela ainda pode abrir lojas e centros de distribuição em outras regiões do Brasil e crescer internacionalmente, mas esse tipo de crescimento demanda mais investimentos que somente as otimizações das operações.
Por tudo que foi apresentado, considero a ação MGLU3 cara e não assumiria o risco de comprar a ação, porque ela embute expectativas de crescimento muito elevadas. Acredito que ou a ação MGLU3 vai corrigir nos próximos anos ou ela vai continuar com um crescimento de lucros espetacular, sendo que eu acho muito mas provável a primeira opção.

Como eu disse no começo do post, não trouxe verdades absolutas, mas pontos que devem ser refletidos. Ainda não aprendi a prever o futuro, se o soubesse teria comprado MGLU3 quando a empresa era administrada pela Luiza Trajano e reportava prejuízo atrás de prejuízo. Também não percebi a oportunidade de comprar MGLU3 quando a empresa fazia seu turn around de sucesso, mas aproveitei outras oportunidades vantajosas nesse ínterim. No mercado e na vida, ninguém consegue aproveitar todas as oportunidades que nos surgem. Se aproveitarmos algumas, já está excelente.

ALEA IACTA EST

Comentários

  1. Penso igual. Se tivesse bola de cristal, támbém teria comprado a antiga QGEP3 em 2017, depois ela explodiu! E mesmo hoje, a atual ENAT3 tem indicadores muito melhores que a MGLU3.
    http://www.fundamentus.com.br/detalhes.php?papel=ENAT3
    Essa, tá na mira.

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    1. Lembrado que QGEP3 = ENAT3 agora, mudou o tag.

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    2. Salve, Heavy Metal! Também estou de olho na Enauta. Ela se encaixa na mesma condição da Unipar: empresa muito boa com controlador não tão bom assim. A diferença é que a Enauta depende muito do preço do petróleo, mas acho que o petróleo não deve cair muito de preço nos próximos anos.

      Abraço!

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  2. Quem entrou, entrou.
    Quem não entrou não dá mais pra entrar.
    Abraço!

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    1. Concordo, Frugal! Agora não tem mais smart money entrando.

      Abraços!

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  3. Baseado nos comentários dos colegas acima, julgo que é bom ter uma "reserva de oportunidade" para aproveitar aqueles momentos em que julgamos que uma empresa boa está barata

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    1. Salve, Mago! Eu faço justamente isso, deixo quase toda minha RFna liquidez diária para ter bala na agulha para aproveitar boas oportunidades, mesmo que consiga taxas um pouco mais baixas.

      Abraço!

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  4. ME, por isso defendo parte da carteira em RF. Simples assim.

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  5. Magazine Luiza é uma ótima empresa. Mas acho que o preço está um pouco fora da realidade.
    https://investidortop.com.br/

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    1. Salve, Anderson! Concordo com o raciocínio. Pelos motivos explanados no artigo, não compro ações de empresas negociadas a preços que considero fora da realidade, mesmo que sejam bem administradas.

      Abraços!

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